Você está dançando a sua vida ou sendo dançado por ela?
Por Marcelo Leal · leitura de 7 minutos
Tem uma pergunta que eu carrego comigo faz tempo, e ela não é sobre dança. Pelo menos não parece. A pergunta é essa: você está vivendo a sua vida ou está sendo vivido por ela?
Parece filosofia solta, mas segura o pensamento comigo, porque isso tem tudo a ver com o motivo de você ainda não ter aprendido a dançar.
O piloto automático da alma
A gente acorda, escova os dentes, pega o mesmo caminho, senta na mesma cadeira, reclama das mesmas coisas. O cérebro adora isso. Ele automatiza tudo para economizar energia, e faz bem, porque se a gente tivesse que decidir conscientemente cada passo, entrava em colapso antes do meio-dia.
O problema é quando esse piloto automático toma conta não só das tarefas, mas da pessoa inteira. Aí a gente vira o que os filósofos chamam de mecanicidade: uma vida repetida no reflexo, sem consciência, sem presença. Uma dança da chuva que a gente executa todo dia sem saber mais o que está tentando invocar.
Somos aquilo que fazemos repetidamente. A excelência não é um ato, é um hábito. (Aristóteles)
Ou seja: você não é a pessoa que um dia sonhou em dançar. Você é a pessoa que, todo sábado, escolhe de novo ficar sentada. O caráter, o corpo, a presença, tudo isso é feito de repetição.
O medo também é um hábito
Aqui está a parte que quase ninguém percebe. A vergonha de dançar, o "eu não tenho ritmo", o "vou pagar mico" não são a sua natureza. São hábitos emocionais. Reações que você repetiu tantas vezes que passou a achar que são você.
Tem um conto que eu adoro. Um sábio é ofendido o dia inteiro por um jovem que quer provocá-lo, e ele não reage. Perguntam por quê. Ele responde: se alguém te oferece um presente e você não aceita, com quem fica o presente? O medo é um presente que a vida te oferece toda vez que você pensa em se expor. Você não é obrigado a aceitar e levar pra casa.
A boa notícia sobre trocar de trilho
Existe uma regra que muda tudo: a natureza não admite vácuo. Não adianta só tentar parar de ter medo. Você precisa colocar outra coisa no lugar. E é exatamente isso que uma aula de dança faz.
No lugar do hábito de se encolher, você repete o hábito de ocupar o espaço. No lugar da autocrítica, a repetição de pequenas vitórias. No lugar de assistir à própria vida de longe, o hábito de estar presente, aqui, agora, com outra pessoa na sua frente.
E tem a terceira regra, a mais bonita: constância vence intensidade. Ninguém aprende a dançar num surto de motivação de fim de ano. Aprende na pequena repetição. Uma aula por semana. Um passo de cada vez.
A diferença entre um tronco de madeira e um barco feito da mesma madeira é que o barco tem remos, e pode navegar contra a corrente.
Os seus remos são a sua vontade. O determinismo do "eu sempre fui tímido, eu nasci assim" pode te inclinar, mas não te define. Basta você pegar os remos.
O primeiro passo é literal
Eu não ensino só coreografia. Eu ajudo você a trocar um hábito velho, o de ficar de fora, por um hábito novo, o de se jogar. E olha que interessante: o corpo aprende isso antes da cabeça. Você dá o primeiro passo, o segundo vem mais fácil, e quando vê, já não é mais a mesma pessoa que entrou na sala.
Você não precisa de ritmo. Não precisa de par. Não precisa acreditar em nada disso agora. Precisa só começar a repetir uma escolha diferente. O resto vira hábito. E o hábito, quando é escolhido com consciência, deixa de ser prisão e vira liberdade.
Fonte: texto baseado no trabalho da filósofa e escritora Lúcia Helena Galvão (Nova Acrópole), com referências a Aristóteles, Platão, Epicteto e à metáfora do barco e dos remos de Jorge Ángel Livraga.
Comece um hábito novo hoje.
A primeira aula experimental no Campeche é por nossa conta. Um passo de cada vez.
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